terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Anamnese

  O tempo congelou. Os pássaros deixaram de cantar. As folhas deixaram de cair. Morte. Propagava-se por toda esta casa como se de uma epidemia se tratasse. Todas as minhas memórias pareciam desvanecer-se, pareciam estar a ficar gastas pelo tempo como um par de sapatos; a minha infância passou como um meteorito no espaço, tudo o que pedia era poder voltar àqueles tempos e reviver tudo como se a morte já adivinhasse. Afinal a morte é a única coisa certa na vida, mas tudo parecia irreal quando era miúdo, parecia que a vida se tratava de um relógio parado, de um calendário cujas folhas nunca foram rasgadas, parecia que aqueles pequenos mas grandes momentos da minha infância iriam ser assim para sempre. Ainda me lembro de correr pelos corredores daquela que parecia uma mansão, talvez pelo meu tamanho, com aquelas pequenas sombras a acompanharem-me, como se de parte de mim se tratassem. Aquela felicidade tornou-se em algo inesquecível e fez de mim quem hoje sou. Ainda tenho presente na minha cabeça aquela música que todos os dias no ar pairava. Ai como eu dançava ao som desta! Parecia que ganhava asas e voava a cada nota. A luz que pela janela todos os dias entrava rejuvenescia-me apesar da minha jovialidade. Sentia-me como nascido das cinzas. Todos os dias me sentia como um recém-nascido que acabara de ver o sol e de sentir a vida pela primeira vez. Respirei fundo e abri os olhos. Por momentos tive esperança de que estas memórias se tivessem tornado realidade. Precisava de as viver mais uma vez, nem que por um segundo fosse. Elas iriam ajudar a tornar este processo menos doloroso, iriam tornar o pouco tempo que tenho num infinito só meu. Sem elas tudo iria parecer sem vida, pois, apesar do cheiro a morte nesta casa, ainda consigo extrair uma pequena fragância a vida. Talvez essa seja a minha memória, que, nesta casa iria permanecer para a eternidade. Tudo o que me resta é despedir desta casa velha onde vivi os meus melhores tempos. Fechei os olhos. Abracei a morte com um sorriso na cara.


Memória fictícia criada a partir do poema "Outro tempo" , de Gastão Cruz.

-B 

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