quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

"Aquele que partiu"

  Na minha opinião, este poema de Sophia de Mello Breyner Andresen é bastante interessante. Em aula selecionei-o para criticar devido à semelhança de tema com o poema que escolhi para apresentar. Este poema fala da morte e da memória, fala de o facto de que quando alguém parte nos deixa saudade e continua no nosso pensamento. Sophia consegue transmitir todos esses sentimentos através de comparações constantes, fazendo-o de forma bela. No poema dá a entender que esse alguém que partiu, era chegado à autora, pois, no último verso ela refere um "nome proibido". Mais uma vez, Sophia refere elementos da natureza no poema, como costuma fazer em quase todos da sua autoria, nomeadamente a praia, o vento, a terra.
  Acho que este poema é interessante de se estudar e explorar, apesar de não ter sido a minha escolha.

-B

"Aquele que partiu"

Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência 
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo 
Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento 
E que ninguém repita o seu nome proibido.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Anamnese

  O tempo congelou. Os pássaros deixaram de cantar. As folhas deixaram de cair. Morte. Propagava-se por toda esta casa como se de uma epidemia se tratasse. Todas as minhas memórias pareciam desvanecer-se, pareciam estar a ficar gastas pelo tempo como um par de sapatos; a minha infância passou como um meteorito no espaço, tudo o que pedia era poder voltar àqueles tempos e reviver tudo como se a morte já adivinhasse. Afinal a morte é a única coisa certa na vida, mas tudo parecia irreal quando era miúdo, parecia que a vida se tratava de um relógio parado, de um calendário cujas folhas nunca foram rasgadas, parecia que aqueles pequenos mas grandes momentos da minha infância iriam ser assim para sempre. Ainda me lembro de correr pelos corredores daquela que parecia uma mansão, talvez pelo meu tamanho, com aquelas pequenas sombras a acompanharem-me, como se de parte de mim se tratassem. Aquela felicidade tornou-se em algo inesquecível e fez de mim quem hoje sou. Ainda tenho presente na minha cabeça aquela música que todos os dias no ar pairava. Ai como eu dançava ao som desta! Parecia que ganhava asas e voava a cada nota. A luz que pela janela todos os dias entrava rejuvenescia-me apesar da minha jovialidade. Sentia-me como nascido das cinzas. Todos os dias me sentia como um recém-nascido que acabara de ver o sol e de sentir a vida pela primeira vez. Respirei fundo e abri os olhos. Por momentos tive esperança de que estas memórias se tivessem tornado realidade. Precisava de as viver mais uma vez, nem que por um segundo fosse. Elas iriam ajudar a tornar este processo menos doloroso, iriam tornar o pouco tempo que tenho num infinito só meu. Sem elas tudo iria parecer sem vida, pois, apesar do cheiro a morte nesta casa, ainda consigo extrair uma pequena fragância a vida. Talvez essa seja a minha memória, que, nesta casa iria permanecer para a eternidade. Tudo o que me resta é despedir desta casa velha onde vivi os meus melhores tempos. Fechei os olhos. Abracei a morte com um sorriso na cara.


Memória fictícia criada a partir do poema "Outro tempo" , de Gastão Cruz.

-B 

"Outro Tempo"

Ficávamos de tarde com a música
 na escuridão dos quartos repassados
  de secura
    como se a luz atravessasse
     sem claridade a casa

      O corredor
       alargava junto ás salas
        fechadas a maior acabava num
         púlpito debaixo
          do torreão em forma de coroa da casa

           Durante horas a música lançava
            obscuras vagas
             o futuro
              tão perto já cavava
               covas nas salas nunca usadas


Gastão Cruz
(inédito)
mAGAZINE artes
Número 4

Bernardim Ribeiro

Ai minha doce Beatriz,
o que eu não sofro por ti!
Sofro pelo nosso amor condenado pelo destino,
sofro por não poder estar contigo.
Teu pai obrigou-te a casar,
o que fez meu coração despedaçar-se.
Eu sempre soube o que nutrias por mim
apesar de a esta relação termos de pôr fim.
Para esta relação não há futuro,
por isso procurei uma solução.
Vou partir e mais não me vais ver,
vou deixar-te com o coração nas mãos.
Adeus, Beatriz, adeus meu amor,
assim me despeço de ti,
com grande sofrimento e dor.

-B

"Entre mim mesmo e mim"

Vilancete


Entre mim mesmo e mim
não sei que se alevantou,
que tão meu imigo sou.

Uns tempos, com grande engano,
vivi eu mesmo comigo,
agora no mor perigo
se me descobre o mor dano.
Caro custa um desengano
e pois me este não matou
quão caro que me custou.

De mim me sou feito alheio.
entre o cuidado e cuidado
está um mal derramado
que por mal grande me veio.
Nova dor, novo receio
foi este que me tomou:
assim me tem, assim estou.

RIBEIRO, Bernardim. "Entre mim mesmo e mim". In: SILVEIRA, Francisco Maciel (org.). Poesia Clássica São Paulo: Global, 1988.

Bocage

  No passado dia 12 de novembro, a nossa turma deslocou-se à Escola preparatória du Bocage para realizar uma apresentação a duas turmas de 9º ano em honra dos 250 anos do nascimento de Bocage e para falar sobre a disciplina de Literatura Portuguesa.
Inicialmente, a turma mostrou-se nervosa. Porém, após iniciar a primeira apresentação, começou a sentir-se mais descontraída e à vontade. No tópico sobre Bocage, os alunos implicados transmitiram toda a informação essencial à apresentação, e mostraram grande maturidade e capacidade de falar para um auditório com alguns membros do público desinteressados e imaturos. Ao contrário da primeira turma, a segunda turma mostrou-se interessada e participativa, o que levou os elementos que estavam a apresentar realizarem um trabalho ainda mais fluente, alcançando um melhor desempenho, acabando por envolver membros do público na atividade.
No tópico sobre Literatura, as alunas responsáveis por abordar a disciplina apresentaram positivamente os conteúdos estudados em aula, tentando incentivar o público a procurar opções alternativas. Também foi realizada uma introdução à disciplina, aos seus objetivos, aos seus métodos de avaliação e saídas profissionais.
A turma atingiu todos os seus objetivos, apesar da pressão de estar a ser avaliada e julgada por um público desconhecido, num ambiente não familiar, mostrando capacidade de ultrapassar barreiras e de singrar sucecidamente na vida académica.

-B e M